Trama em Espelho

didactic work for ensemble|obra didática para conjunto misto
2016

Score available in: Simone Marques Braga e Mônica Cajazeira Santana Vasconcelos. (Org.). Tocar, cantar, criar: a composição no ensino musical. 1ed.Feira de Santana: Editora da UEFS, 2018, v. , p. 211-218

Sonoridades que se tramam no espaço da escuta. Uma concatenação de gestos que se desdobra no tempo, e que anseia a reversibilidade, oferece o futuro em troca do passado. A composição da obra didática Trama em Espelho ocorreu a partir desse contexto poético, dessa intenção expressiva1. Mas não apenas. A obra responde também ao desafio da composição de uma obra contemporânea de caráter didático.

O desafio a ser enfrentado é enorme, mas não menos pertinente. O compositor Ernst Widmer costumava afirmar que “compor e educar é a mesma coisa”2. Ora, os processos de ensino e aprendizagem carregam consigo o compor em suas múltiplas facetas, assim como cada composição é um ato pedagógico.

Mas o desafio não reside em questões conceituais. A expansão dos horizontes no compor e na análise musical acentuada nos últimos 50 anos, que ocasionou em uma vertiginosa multiplicação das tendências estéticas, processos, materiais, bem como sonoridades e técnicas de execução musical, coloca-nos frente ao problema. Reconhecer e fazer perceber a expansão de horizontes ao tempo em que se propõe algo didático, acessível, passível de ser tocado por músicos não-profissionais.

Trama em Espelho responde ao desafio a partir de uma experiência prévia. O projeto Música de Agora na Bahia (MAB)3, que coordeno em colaboração com os compositores Alexandre Espinheira e Paulo Rios Filho, desenvolveu uma série de ações de formação de compositores, intérpretes, não apenas no contexto da universidade, mas em escolas da rede básica de ensino e através de um programa de formação. Entre 2012 e 2015, realizamos quase 50 recitais-relâmpagos em escolas da rede básica, com obras de um minuto de duração, escritas por compositores em formação, para intérpretes em formação, para serem ouvidas por uma plateia em formação.

Sob o ponto de vista prático, a obra apresenta um conjunto reduzido de materiais, organizados sob uma forma espelhada – o que garante uma coesão e permite um maior aproveitamento e entendimento no estudo das partes e na montagem –, sem mudanças de compasso ou andamento. Entretanto, esses materiais são submetidos a transformações nas sonoridades a partir de pequenas estratégias de mudanças de timbres, formação de texturas, derivação, inflexões e variação.

Logo nos compassos iniciais, é possível notar um conjunto limitado de materiais tem a potencialidade de gerar variedade pela transformação de padrões simples. Os colchetes marcados nas partes do violão/guitarra, bandolim/cavaquinho e violoncelo/contrabaixo, indicam padrões de 7, 5 e 3 tempos respectivamente. A repetição desses padrões permite que cada músico tenha um conjunto limitado de sons para executar, que devem ser repetidos. Entretanto, como são números primos, o alinhamento dos materiais não ocorre brevemente, o que garante a variedade e coesão na forma.

Outras estratégias envolvem o uso de ideias simples que são derivadas, como a alternância de casas em uma mesma posição no violão, gerando três acordes diferentes, nos compassos 3, 5 e 13; a escolha de um número de multifônicos simples na flauta e no clarinete que são repetidos em diferentes combinações ao longo da obra; e a rotação de materiais previamente executados, como ocorre nos compassos 26 a 30.

Embora as estratégias de transformação e derivação partam de operações simples, a obra apresenta desafios. Musicalmente, ela demanda do grupo uma entrega para uma escuta específica. Tecnicamente, a obra não está organizada a partir de parâmetros mais convencionais, tais como harmonia, forma e ritmo. Nesse sentido, os gestos, timbres e texturas tem uma importância mais acentuada na forma do que os parâmetros musicais tradicionais.

Recomenda-se a regência para um melhor resultado em termos didáticos. A familiaridade com as sonoridades e técnicas de execução poderia facilitar. Entretanto, as técnicas de execução, embora não tão conhecidas em alguns contextos, são amplamente aplicadas e abordadas em manuais de orquestração e sítios especializados na internet4.

É preciso ressaltar ainda que as sonoridades, materiais e processos da obra foram inspirados no repertório de obras recentemente apresentadas no projeto Música de Agora na . Espero que essa obra possa contribuir para a expansão de horizontes e que tenha a capacidade de possibilitar experiência instigantes, provocando os estudantes a descobrir novos caminhos nas práticas musicais.

1Abordar um processo de composição de uma obra é por si só um desafio. A expressão “intenção expressiva” e outros termos e entendimentos que suportam o discurso são discutidos por REYNOLDS (2002). Realizei uma incursão em um possível compor a partir do contexto da capoeira regional na minha tese de doutorado (BERTISSOLO, 2013).
2A esse respeito, ver as intrigantes considerações de LIMA (2012, 2014) sobre o ensino de composição e sobre a pedagogia de Widmer.
3O projeto Música de Agora na Bahia (http://www.musicadeagoranabahia.com/) teve sua primeira edição em 2012. A última edição julho de 2014 e se estendeu o começo de 2016 e contou com: (1) série de dezoito concertos com atrações nacionais e internacionais; (2) dezoito projeções de música eletroacústica, com interação de video-artistas, bailarinos e atores; (3) quatro seminários em música contemporânea, durando uma semana cada, com professores de composição e instrumentistas de outros estados e/ou países, incentivando assim também o intercâmbio entre pares; (4) trinta e dois concertos relâmpago em escolas da rede pública; e (5) concurso de composição que terá como prêmio uma residência artística em Salvador visando a composição de uma obra inédita.
4Como por exemplo ADLER (1989). Uma lista de links para fontes sobre recursos (instrumentais, de orquestração e técnicas estendidas), compositores que desenvolvem um compor a partir das sonoridades mencionadas e fontes institucionais úteis está disponível em https://guilhermebertissolo.wordpress.com/links/.

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