Ouça

Finalizando a prometida comemoração do Prêmio Funarte, divulgo a nova gravação da peça Ouça, feita novamente pelo Grupo de Percussão da UFBA (Bravo!) e por Josehr Santos, para quem a peça é dedicada no 1º Seminário em Composição do MAB (http://musicadeagoranabahia.com/) em 21 de junho de 2010.

Além da voz de baixo, a peça conta com seis percussionistas: xilofone (que também toca caixa-clara), vibrafone (que também toca 5 sinos de vaca e unhas de cabra), marimba (que também toca 2 crotales e unhas de cabra), tímpanos (que também toca 2 pratos suspensos), percussão múltipla 1 (1 bombo , 1 caixa-clara , 1 bongô triplo , 4 ton-tons e 1 tam-tam) e percussão múltipla 2 (1 bombo , 1 caixa-clara , 1 temple-block , 1 tamborim , 1 triângulo e 3 gongos javaneses).

Essa peça é livremente inspirada no texto sfot poc de Luiz Fernando Veríssimo (aqui tem uma reprodução da crônica) que conta a estória de Odacir, um sujeito que desde que nasceu emitia sons para toda e qualquer pontuação: “poc” para ponto, “plic” para vírgula, “sfot poc” para exclamação, “sfotoim poc” para interrogação, e por aí vai! Recomendo a leitura, que é de uma sagacidade e uma espirituosidade extremas.

Inspirado nesse curioso caso, parti para uma espécie de “diálogo esquizofrênico entre o compositor, Luther King, Kafka, Freud, Castro Alves, Rui Barbosa, Martin Lutero, Marx e Engels, Adam Smith, o Apocalipse, Lopes Neto”. Assim, selecionando trechos destes textos clássicos, realizando uma operação de pastiche e reordenamento, tratei o texto como material para a composição em si. Apliquei, é claro, o filtro dos “poc’s” e “plic’s” eles.

O resultado foi um interessante emaranhado de sonoridades oriundas da voz de baixo, escolhida muito por ter a capacidade de potencializar as especificidades tímbricas do texto resultante. Parti então dessa sonoridade e de pouquíssimas informações em termos de alturas, guiando a escritura pelo timbre.

Há um processo musical importante: parti de um dos tetracordes de todos os intervalos para estabelecer uma expansão intervalar durante toda a peça. Assim, a segunda menor do tetracorde (entre as notas E e F) foi uma espécie de zona de atração para a primeira micro-seção, a segunda maior (G# e A#), para a segunda micro-seção, e assim por diante. Então, por óbvio, ao final há a conformação a partir de intervalos de sétimas maiores. Esse movimento de expansão intervalar, uma espécie de Bartók implodido, é interrompido por uma seção central, lírica, baseada em um poema de Castro Alves, em um momento onde a voz ganha o papel principal na obra, ressonante e vigorosa (quase uma sátira ao bel canto).

A partitura está disponível na seção “Obras” e a gravação em “Ouça!”. Boa escuta!

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